quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

... o casal



Haviam vestido todas as roupas que o amor em comum lhes 
permitira. Se pudessem escolher como terminar a própria 
história, escolheriam a última roupa nesta terra, de 
madeira clara e forro de cetim.
Entretanto, o futuro não lhes pertencia e havia muito 
aprenderam que o tempo, o agora, era argila em suas mãos.
Assim, haviam esculpido dias e filhos e netos, no seio do 
enlace que lhes fora bênção dirigida pelos mistérios 
divinos.
Difícil lembrar-se do que não haviam feito juntos, pois 
tantos dias e tantas noites, tanta lágrima e tanto riso só 
poderiam mesmo ter construído aquele obelisco alto e 
sólido, uma espécie de farol que iluminava os arredores e 
mais, a perder de vista, quantos fossem os que lhes vissem.
Ela arrematava seus pontos caprichosos em bordados 
bonitos, intermináveis desenhos de cores diversas e assim 
desenhava para ele o amor.
Ele, talhava na madeira o que sentia, o que via, tentava 
deixar gravado para a eternidade, para ela, o seu amor.
Juntos, haviam sido mais do que apaixonados jovens. Eles 
aceitaram um dia aventurar-se numa vida de sacrifícios 
quando resolveram dizer não a casamentos prometidos 
com outros pretendentes. Juntos, juraram estar para 
sempre de mãos dadas e respeitar a escolha feita 
tentando fazer com que valesse a pena.
Ele se lembrava da jovem que fugira com ele tantos anos 
atrás, olhos repletos de espanto e amor ao se verem 
diante de um vestido de noiva e de um bolo confeitado, 
encimado por um casal de noivos que os refletia quase 
que perfeitamente.
Uma surpresa pela qual ele se esforçara. Ninguém mais do 
que seu amor merecia.
Uma festa para os noivos e dois padrinhos apenas. Um 
bolo cortado às pressas, antes da partida do último trem, aquele 
que os levaria à vida escolhida. A noiva mais linda que os 
olhos dele haviam visto e veriam, preferiu segurar o casal 
que enfeitava o bolo a saboreá-lo. Trouxe-os junto ao 
peito até adormecer no ombro dele, noite alta, trem
apitando rumo ao norte. Ele percebeu que, mesmo quando
adormecida, as mãos dela não afrouxavam e sorriu
emocionado ao perceber a firmeza dela e sua força ao tê-
lo escolhido à revelia.
Assim havia sido sempre. Ela, a força dele. Ele, a força 
dela.
A casa que construíram anos depois refletiria todos os 
dias a necessidade de ambos em plantar junquilhos, 
rosas, jasmins,para perfumar-lhes os dias, a família que 
crescia e o amor renovado.
O que não haviam feito juntos não importava, de fato.
Significava mais o tempo esculpido com as mãos de sua 
profunda relação.
Os pequenos noivos que um dia encimaram o bolo 
confeitado de um casamento apressado, sobreviveriam 
para contar com seu silêncio e as marcas do tempo, 
proezas e belezas de um amor que nascera bom.
[imagem: romulo viana]


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