Haviam vestido todas as roupas que o amor em comum lhes
permitira. Se pudessem escolher como terminar a própria
história, escolheriam a última roupa nesta terra, de
madeira clara e forro de cetim.
Entretanto, o futuro não lhes pertencia e havia muito
aprenderam que o tempo, o agora, era argila em suas mãos.
Assim, haviam esculpido dias e filhos e netos, no seio do
enlace que lhes fora bênção dirigida pelos mistérios
divinos.
Difícil lembrar-se do que não haviam feito juntos, pois
tantos dias e tantas noites, tanta lágrima e tanto riso só
poderiam mesmo ter construído aquele obelisco alto e
sólido, uma espécie de farol que iluminava os arredores e
mais, a perder de vista, quantos fossem os que lhes vissem.
Ela arrematava seus pontos caprichosos em bordados
bonitos, intermináveis desenhos de cores diversas e assim
desenhava para ele o amor.
Ele, talhava na madeira o que sentia, o que via, tentava
deixar gravado para a eternidade, para ela, o seu amor.
Juntos, haviam sido mais do que apaixonados jovens. Eles
aceitaram um dia aventurar-se numa vida de sacrifícios
quando resolveram dizer não a casamentos prometidos
com outros pretendentes. Juntos, juraram estar para
sempre de mãos dadas e respeitar a escolha feita
tentando fazer com que valesse a pena.
Ele se lembrava da jovem que fugira com ele tantos anos
atrás, olhos repletos de espanto e amor ao se verem
diante de um vestido de noiva e de um bolo confeitado,
encimado por um casal de noivos que os refletia quase
que perfeitamente.
Uma surpresa pela qual ele se esforçara. Ninguém mais do
que seu amor merecia.
Uma festa para os noivos e dois padrinhos apenas. Um
bolo cortado às pressas, antes da partida do último trem, aquele
que os levaria à vida escolhida. A noiva mais linda que os
olhos dele haviam visto e veriam, preferiu segurar o casal
que enfeitava o bolo a saboreá-lo. Trouxe-os junto ao
peito até adormecer no ombro dele, noite alta, trem
apitando rumo ao norte. Ele percebeu que, mesmo quando
adormecida, as mãos dela não afrouxavam e sorriu
emocionado ao perceber a firmeza dela e sua força ao tê-
lo escolhido à revelia.
Assim havia sido sempre. Ela, a força dele. Ele, a força
dela.
A casa que construíram anos depois refletiria todos os
dias a necessidade de ambos em plantar junquilhos,
rosas, jasmins,para perfumar-lhes os dias, a família que
crescia e o amor renovado.
O que não haviam feito juntos não importava, de fato.
Significava mais o tempo esculpido com as mãos de sua
profunda relação.
Os pequenos noivos que um dia encimaram o bolo
confeitado de um casamento apressado, sobreviveriam
para contar com seu silêncio e as marcas do tempo,
proezas e belezas de um amor que nascera bom.
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| [imagem: romulo viana] |

Lindo texto. A riqueza de detalhes me encanta! Deliciosa leitura.
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