Ela gostava tanto de olhar para ele... era como se visse a si mesma, só que revestida de mel. Era doce olhar para ele. Havia aquela aura de claridade. Havia aquele som que vinha dele quando se movia.
Às vezes, sentado na cama, depois dos atos de amor, ele assoviava uma canção antiga enquanto passava as mãos pelos cabelos ensaiando se levantar.
Ela olhava para o corpo dele como quem visse uma escultura e já se imaginava a dançar agarrada a ele, sendo levada por ele, como na 'A Valsa', de Camille.
E havia aquela cicatriz no joelho, larga, obtusa, marca antiga que devia ter sido funda e de profunda dor.
Quando voltava, geralmente trazendo uma pequena flor que sempre havia no vaso sobre o balcão da sala, havia aquele sorriso que parecia desenhado por deuses de um olimpo sempre vibrante próximo a ela. Um sorriso menino, de covas perfeitas ladeando os lábios finos.
Ela, então, tinha a impressão de que não estava ali, de fato. Era como se estivesse distante, em local outro e flutuante e que o mundo estava largado num mar de mesmice lá fora.
À mesa, quando ele comia, ela sabia que lhe dera um pouco do amor que sentia e ele o mastigava com vagar e satisfação.
Ah. Como ela gostava de olhar para ele. De ouvi-lo. De cheirar a presença dele, do suor ao hálito, café ou menta, passando pela colônia algo cítrica.
Foi como ir guardando numa caixinha cor-de-rosa - ou carmim? - cada momento em que saboreava sua presença.
Ela sabia.
Tanto sabia que, quando ele foi e não retornou, aceitando enfim sua condição de homem de uma só família, ela o teve por anos ali, em pedacinhos contidos de um amor proibido, roubado e finalizado apenas com a completude exata que ela fez cumprir. É isso, foi num certo dia, depois de muitos natais em que não pôde olhar para ele, tampouco ouvi-lo, cheirá-lo, alimentá-lo e se alimentar dele.
Amores dos quais se guardam o que faz viver, latejar de paixão e heresia. E que sobrevivem apenas nas memórias de quem amando o sagrado, permitiu-se ser profana e simplesmente, mulher.
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| [a valsa, de camille claudel] |

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