Ele lhe era bastante improvável. Ela jamais imaginara olhar duas vezes para alguém como ele. Mas olhara. E, por mais improvável que pudesse ser, olhou de novo e de novo.
Até que sentisse que não poderia passar um dia sequer sem olhar para aquela cara absolutamente comum e ouvir daquela boca que queria tanto beijar aquelas piadas sem graça, contadas à mesa do boteco esbarrando em garrafas de cerveja.
Ela ria feito uma tola, achando graça de tudo e rindo muito antes de cada piada terminar. Porque gostava do jeito que aqueles lábios se moviam, do tom bobo da voz que não tinha graves nem agudos e era um desafino só quando ensaiava uma canção qualquer naquele bar de karaokê.
Usava às vezes uma calça branca com sapados pretos. Ela detestava isso. Mas ele...ah! Ele ficava lindo, porque ela só enxergava a camisa amarela que deixava a pele dele iluminada.
Ele não trabalhava na segunda, porque amanhecia em meandros que ninguém podia imaginar. Mas ela estava com ele. E desejava ser aquele palito que ele fazia dançar na boca. A boca que ela gostava de beijar.
Ele era tão improvável que o improvável aconteceu.
Eles foram companheiros por um tempo, dizem até que quando faziam amor acordavam a vizinhança.
Nesse ponto ela já nem se lembrava de quem era, quem havia sido, quem queria ser antes de querer ser dele.
Começou a desejar ficar parecida. Sentia-se 'perua', sofisticada demais para a vida que levavam, perdidos e achados nas noites sem fim que davam para a boca das manhãs em que pegavam caixas de leite na calçada das mercearias e iam rindo pela rua, bebendo leite enquanto amanhecia para dormirem até o sol se pôr e começar tudo, tudinho outra vez.
Ele não gostou das mudanças. Disse que ela estava feia e ele gostava da madame que ela era. Foi curto e grosso.
Ele era tão improvável para ela que o provável aconteceu. Quando ela mudou para ser mais parecida com ele, ele a despachou para outras bandas. Queria só madame. De mequetrefes, bastava ele.
Ela, provavelmente, tentou voltar para a sua vida anterior. Ninguém mais sabe, porque ninguém mais viu.
Ele vive do mesmo jeito, dando um jeitinho ali e outro aqui. Contando piadas sem graça e flertando com as madames que, um dia ou outro, inventam de querer variar.
![]() |
| [imagem: via 'bonequinha sonhadora'] |

Uau...
ResponderExcluirMuito bom!
ResponderExcluirBeleza de conto.
ResponderExcluirCom aquele saber dizer certas coisas que Aglaé tem.