Beijou os lábios dela tão ligeiro, afobado, e foi saindo, passos de pressa e fome do dia.
Na verdade, nem sabia: para onde iria?
Perdera o emprego havia uma semana
e não contara.
O que ela diria?
Logo agora, prenha do menino deles, seis meses já, de vida.
Deu-se conta lá fora, rua aberta, barulhenta, gente indo, gente vindo, sol subindo ele ali, parado, na ladeira.
Havia dias, nem olhava direito nos olhos dela.
Não conseguia.
Ela e aqueles olhos molhados, sedentos sempre de verdades e pequenas explicações, prestações de contas para que o coração quase grande tirasse lá suas conclusões.
Não. Ele não conseguia.
Ela ia saber e o que diria?
"Mentiroso!" - lhe jogaria na cara, cuspindo como fogo palavras que não merecia.
Porque ele tentara tudo, mas mesmo assim, recebera um bilhete azul, numa quinta-feira poeirenta, quente, dessas que secam tanto a garganta que suplicam por uma cerveja.
"Por que mentir pra mim?"
"Como conseguiu perder emprego logo agora, eu barriguda desse jeito!?"
Sim. Ela diria. Como seu fosse da vontade dele perder o trabalho que ele até que gostava, um vai e vem na linha de produção da fábrica do bairro que conseguira manter por uns bons cinco anos.
Não. Ele não conseguia.
Falar para ela, nem pensar.
Preferia tentar achar alguma coisa. Um bico, um free, uma tramoia. Qualquer coisa que levasse para casa a grana esperada, a segurança ansiada, o sossego dos bons.
Batia às portas, nenhuma se abria. Mais um dia passava e nada lhe vinha.
Quase anoitecendo, o estômago gritando, ele voltava.
Na mesa, de arroz e feijão e salada, aquela noite, três conduções depois, apenas um bilhete jazia:
" Teu filho tá com pressa. Levei a Neide pro hospital. "
A letra garranchada era da velha, a mãe de Neide, avó do menino dele. Coisa que não se podia escolher, depois que se engatava de amor pela filha. E vinha de embrulho a mãe.
Correu sem se lembrar de comer. Como ia nascer já o seu menino?
Eram só seis os meses de gestação!
Por Deus! O menino desse jeito não vingava, não!
E ele rezou. Nem se lembrava da última vez que havia feito o sinal-da-cruz e aquele lhe doeu no peito. Tudo doía, em meio à correria.
Até o ar que se enfiava pelo seu nariz e lhe chegava aos pulmões.
Pensava na mentira, No que não contara. E no castigo que agora lhe vinha.
Chegou ao hospital suado e gasto, pálido e enfurecido. Que lhe dissessem de Neide e do seu menino!
Não precisou. A sogra estava a um canto, terço nas mãos, olhos esbugalhados e repletos de medo. Os lábios deviam estar dizendo orações de tempos atrás ainda tão vigentes, tão fortes e raras, as palavras a explodirem bolhas de pavor pelo ar.
"Cadê?" - ele perguntava.
Ela não respondia.
"Cadê?" - ele insistia.
"Eles tão bem. O menino é forte. Quase quatro quilos. Nem sei como pode...ela tava tão mirradinha..."
Mas os olhos dela não se detinham nos dele.
O medo estava no hálito dela, ele sentia.
Caiu a ficha.
Quase quatro quilos?
Mas... o menino era para ser prematuro!
Os olhos dele foram ficando injetados.
Ele entendia.
Não era castigo, nada. O menino de Neide nascia no tempo certo. Robusto e forte, mas olhos bem puxados e cabelos escuros e lisos, o bebê que ela segurava quando o marido entrou na enfermaria nada tinha dele.
Neide espichou os olhos molhados na direção dele e ia abrir a boca para falar.
"O que você fez, mulher? Você ficou quase um ano fora, trabalhando na missão!"
A criança chorava, os olhos apertavam mais ainda e vê-los quase não se podia.
Neide chorava. E já não era a sua mulher querida.
"Eu queria contar...mas eu não conseguia..."
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| [imagem: istek alinmyior] |




