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| [imagem: arte de valdair braga, em gesso] |
Ele fingia que não via. Ela fingia que não sorria.
Ela abria a janela todos os dias, bem cedo, e esperava.
Ele passava com aquele ar de malandro e jeito de cantador.
Voltava à meia-noite, vinha fazer serenata.
Cantava tudo o que sabia de seresta e até um tango desbocado, ali meio deslocado, de Gardel.
Ela, na imaginação, rosto de anjo e cara de sonho, dançava com ele de vestido rodado; eram os rostos colados e corações palpitantes.
À noite, hora em que os gatos, todos eles, são pardos, fingiam loucuras de amor, juravam poesias malucas, beijavam lábios de flor.
Quando fechava a janela, depois de tantos cantares, ela ainda espiava e o olhava. Lá ia ele e se afastava, gingando o corpo moreno, na ginga que dança o prazer de se mostrar.
Vestindo o terno de linho, levava na lapela a flor que beijava como se fosse ela: atirada, rápida, da janela,
e perfumada de sonhos de amor.
...

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