segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

...idas & vindas

[imagem via supimpagirl.com.br]










Viajou tantas vezes pelos meus caminhos que aprendeu a chegar
mais cedo, antes que a noite fechasse e o 
leite da lua azedasse,
tamanha era a  sua vontade de mim.

A.Gil.


...a úlcera Elza




Aconteceu -pensou ela, olhar parado diante do espelho - aconteceu e eu já não posso evitar. Ele já não me ouve as frases inteiras e enquanto falo, não raro está com os olhos cada vez mais gulosos espichados para as mulheres mais jovens. Já é um olhar indisfarçável. Às vezes eu o pego olhando para o celular e abrindo um sorriso como aquele que ele exibia para meu prazer, anos atrás. Um sorriso menino,aberto, descuidado.
Meu estômago se contrai. Dói.
Eu me lembro de que minha mãe teve uma úlcera depois, anos depois que meu pai nos deixou e ela lhe dava o nome de Elza.
Acontece que era esse o nome de uma das namoradas de papai, que ele mantivera durante o casamento, naquela vida dupla, tripla, já nem sei....que minha mãe suportava também nem sei por quê.
Ou sei. Ou, de novo, não sei.
Agora, aconteceu comigo - repetiu para si mesma, enquanto escovava os cabelos, ainda diante do espelho.
Meus olhos estão ali, mas não são eles. Parecem duas pedrinhas perdidas rolando morro abaixo. Têm cor indefinida e vão se tornando miúdos, miúdos...
Ontem eu o vi, pelo canto de olhos,  dar de ombros por trás de mim. Também doeu. Costumávamos ser amigos, companheiros. respeitávamos os menores gestos um do outro.Ou não?
Foi por isso que aceitei me casar com ele. Porque éramos jovens e nos respeitávamos, sob promessas de continuarmos assim. Não tão jovens, mas sempre respeitosos.
Bem...agora aconteceu e eu nem vi tanto tempo passar. Estive ocupada criando os três meninos e achando que ele também os estava criando.
Ele estava?
Há uma 'Elza' na vida dele?
Nem sei. Jamais procurei saber.
Coisa estranha essa de não me dar conta de que ele, afinal, é apenas um homem.
Talvez eu o tenha feito porque também não me dei conta, depois de um tempo de que sou, enfim, apenas uma mulher.
Nada de heróis,nada de superpais. Somos o que somos, enfim.
E o dia de ver isso, o dia de erguer os lençóis empoeirados de sobre os móveis e arejar a casa chegou.

Nesse momento, ela sorriu um de seus sorrisos tristes e contemplativos. Reparou novamente em seus dentes pequenos, quadrados, como se tivessem sido cortados a fio. O jovem com quem se casara costumava brincar com eles.

Depois que os meninos nasceram talvez não tenhamos nos olhado fundo nos olhos de novo. Tudo foi tão corrido!
Agora eles já são adultos. Deus meu! Eles são adultos e eu fui abandonando meu casamento à medida que foram crescendo!
Não deveria ter sido o contrário?
Na verdade, nenhum de nós deu importância a isso. Tínhamos os filhos, tínhamos que juntar dinheiro para construir a casa na praia, fazer u puxado ali atrás - quen não ficou como eu queria! - e precisávamos garantir o futuro dos meninos e... e.... ah! a vida passando e nosso amor...aquele amor ...ele se acabou.

Aquele amor não visitar a casa da praia - que já está pronta ... para quem?
Será que há uma 'elza' na vida dele que vai com ele aproveitar a casa?
Talvez já esteja aproveitando.
Há mais de um mês não nos deitamos e fazemos amor. E, para falar a verdade, das últimas vezes tudo me pareceu tão mecânico...
Mas o pior, o pior é a falta dos beijos. Não me lembro quando nos beijamos de fato. Um beijo fundo e prolongado, íntimo.
Não me lembro....
Que coisa! Não há mais beijos!...
Meu estômago se contrai. Dói.
Não nos beijamos mais...
É. Ele passa por mim e voa um selinho em meus lábios secos antes de sair.
Acho que isso é pior. Sim, o pior e maior sinal.
Deve haver mesmo uma 'elza' na vida dele, beijando os beijos dele, amando o novo amor dele.

Ela colocou a escova sobre a penteadeira. Passou um batom cor de boca e tentou um sorriso para si. Deveria estar chorosa, talvez. Mas estava vazia. O que doía era o estômago, contraído.

Ah. Perdi o bonde de minha vida vivendo vidas que não minhas.
Mas ainda me resta uma pequena poupança, uns dias de folga e... a casa de praia.
Enquanto ela não se torna motivo de disputa como aquele lustre de cristal dos pais dele. Se bem que não o quero.
Prefiro a simples caneca esmaltada em que mamãe bebia seu chá de espinheira santa. Para se curar de Elza, sua úlcera campeã.



A.Gil.






[imagem via bellico.tumblr.com]

...o engano


Quando ela se despediu, ele achou que poderia rir disso apenas alguns dias depois.
Imaginou-se escrevendo algumas bobagens para passar o tempo e assim, aproveitava para exorcizar o seu amor.
Pela janela, sabia que veria partir, com o inverno, aquela fisgada que sentia em seu peito quando se lembrava dela.
Com o tempo, até ele seria como aquele amor: amarelado, envelhecido, desbotado.
Afinal, a vida era assim mesmo.
Ou não?

.


Um inverno mais tarde,
lá estava ele,
a dedilhar sua máquina de escrever
e
a contar uma história, repetidamente,
do amor maior de sua vida ...

...

A.Gil.

[via fromupnorth.com]














...diálogo


[imagem via ivonete britto]


- O que temos em comum - perguntei-lhe eu.
Olhou-me com os olhos do infinito e já subia, num balão, quando falou:
- Viagens...- disse ele - viagens...-repetiu

A.Gil.

.....ele & ela

foto de jenna walker (c)



Houve um dia, quase assim.
A alma dele a tirou para dançar.
Sob os pés, vento de flutuar.
Corpos quentes, notas de bem querer.
Na pele, desejos de arrepiar.
E a noite, boca aveludada, de beijar.

A.Gil.

...coisas



[imagem: arte de valdair braga, em gesso]




Ele fingia que não via. Ela fingia que não sorria.
Ela abria a janela todos os dias, bem cedo, e esperava.

Ele passava com aquele ar de malandro e jeito de cantador.
Voltava à meia-noite, vinha fazer serenata.

Cantava tudo o que sabia de seresta e até um tango desbocado, ali meio deslocado, de Gardel.

Ela, na imaginação, rosto de anjo e cara de sonho, dançava com ele de vestido rodado; eram os rostos colados e corações palpitantes.

À noite, hora em que os gatos, todos eles, são pardos, fingiam loucuras de amor, juravam poesias malucas, beijavam lábios de flor.

Quando fechava a janela, depois de tantos cantares, ela ainda espiava e o olhava. Lá ia ele e se afastava, gingando o corpo moreno, na ginga que dança o prazer de se mostrar.

Vestindo o terno de linho, levava na lapela a flor que beijava como se fosse ela: atirada, rápida, da janela,
e perfumada de sonhos de amor.

...

....alimento do amor



Ele tinha boca de veludo,
mas lhe cravava os dentes.
Passavam algumas noites entre beijos e mordidas
e outras,
entre lágrimas e despedidas.
Até que um futuro, não muito distante,
desdentado e mudo,
engoliu-lhes o amor.

A.Gil.
[imagem: via red]

domingo, 27 de dezembro de 2015

... conversa



Um papo à toa, café à mesa, eles se disseram umas tantas
mentiras que uma quase verdade.
Falar do tempo e da vidinha, quase uma obrigação.
O que parou foi aquela timidez danada,
coisa que só quem faz tempo ninguém tem,
não saber mais ter alguém.



A.Gil.


[imagem: via adventures]