Aconteceu -pensou ela, olhar parado diante do espelho - aconteceu e eu já não posso evitar. Ele já não me ouve as frases inteiras e enquanto falo, não raro está com os olhos cada vez mais gulosos espichados para as mulheres mais jovens. Já é um olhar indisfarçável. Às vezes eu o pego olhando para o celular e abrindo um sorriso como aquele que ele exibia para meu prazer, anos atrás. Um sorriso menino,aberto, descuidado.
Meu estômago se contrai. Dói.
Eu me lembro de que minha mãe teve uma úlcera depois, anos depois que meu pai nos deixou e ela lhe dava o nome de Elza.
Acontece que era esse o nome de uma das namoradas de papai, que ele mantivera durante o casamento, naquela vida dupla, tripla, já nem sei....que minha mãe suportava também nem sei por quê.
Ou sei. Ou, de novo, não sei.
Agora, aconteceu comigo - repetiu para si mesma, enquanto escovava os cabelos, ainda diante do espelho.
Meus olhos estão ali, mas não são eles. Parecem duas pedrinhas perdidas rolando morro abaixo. Têm cor indefinida e vão se tornando miúdos, miúdos...
Ontem eu o vi, pelo canto de olhos, dar de ombros por trás de mim. Também doeu. Costumávamos ser amigos, companheiros. respeitávamos os menores gestos um do outro.Ou não?
Foi por isso que aceitei me casar com ele. Porque éramos jovens e nos respeitávamos, sob promessas de continuarmos assim. Não tão jovens, mas sempre respeitosos.
Bem...agora aconteceu e eu nem vi tanto tempo passar. Estive ocupada criando os três meninos e achando que ele também os estava criando.
Ele estava?
Há uma 'Elza' na vida dele?
Nem sei. Jamais procurei saber.
Coisa estranha essa de não me dar conta de que ele, afinal, é apenas um homem.
Talvez eu o tenha feito porque também não me dei conta, depois de um tempo de que sou, enfim, apenas uma mulher.
Nada de heróis,nada de superpais. Somos o que somos, enfim.
E o dia de ver isso, o dia de erguer os lençóis empoeirados de sobre os móveis e arejar a casa chegou.
Nesse momento, ela sorriu um de seus sorrisos tristes e contemplativos. Reparou novamente em seus dentes pequenos, quadrados, como se tivessem sido cortados a fio. O jovem com quem se casara costumava brincar com eles.
Depois que os meninos nasceram talvez não tenhamos nos olhado fundo nos olhos de novo. Tudo foi tão corrido!
Agora eles já são adultos. Deus meu! Eles são adultos e eu fui abandonando meu casamento à medida que foram crescendo!
Não deveria ter sido o contrário?
Na verdade, nenhum de nós deu importância a isso. Tínhamos os filhos, tínhamos que juntar dinheiro para construir a casa na praia, fazer u puxado ali atrás - quen não ficou como eu queria! - e precisávamos garantir o futuro dos meninos e... e.... ah! a vida passando e nosso amor...aquele amor ...ele se acabou.
Aquele amor não visitar a casa da praia - que já está pronta ... para quem?
Será que há uma 'elza' na vida dele que vai com ele aproveitar a casa?
Talvez já esteja aproveitando.
Há mais de um mês não nos deitamos e fazemos amor. E, para falar a verdade, das últimas vezes tudo me pareceu tão mecânico...
Mas o pior, o pior é a falta dos beijos. Não me lembro quando nos beijamos de fato. Um beijo fundo e prolongado, íntimo.
Não me lembro....
Que coisa! Não há mais beijos!...
Meu estômago se contrai. Dói.
Não nos beijamos mais...
É. Ele passa por mim e voa um selinho em meus lábios secos antes de sair.
Acho que isso é pior. Sim, o pior e maior sinal.
Deve haver mesmo uma 'elza' na vida dele, beijando os beijos dele, amando o novo amor dele.
Ela colocou a escova sobre a penteadeira. Passou um batom cor de boca e tentou um sorriso para si. Deveria estar chorosa, talvez. Mas estava vazia. O que doía era o estômago, contraído.
Ah. Perdi o bonde de minha vida vivendo vidas que não minhas.
Mas ainda me resta uma pequena poupança, uns dias de folga e... a casa de praia.
Enquanto ela não se torna motivo de disputa como aquele lustre de cristal dos pais dele. Se bem que não o quero.
Prefiro a simples caneca esmaltada em que mamãe bebia seu chá de espinheira santa. Para se curar de Elza, sua úlcera campeã.
A.Gil.
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| [imagem via bellico.tumblr.com] |